Portugal é um local estranho, que um dia destes devia ser explicado aos portugueses. Por exemplo, a questão dos estádios é um verdadeiro desafio para as mentes mais perspicazes. Julgo que se impõe recuar no tempo. Algum tempo antes do Euro'2004, a UEFA alertou a organização portuguesa para o facto de só serem necessários sete estádios; ainda assim, nessa mesma altura, a organização portuguesa insistiu que sete estádios era para meninos, no mínimo teriam que ser dez estádios; a UEFA, como é óbvio, ficou encantada com este antigo complexo de inferioridade; por fim, esta semana, a organização portuguesa, durante o anúncio da candidatura ibérica ao Mundial'2018, comunicou que Portugal deve contribuir com três estádios. Resumindo: precisamos de sete estádios, construímos dez, e agora disponibilizamos três.
Entretanto, há estádios espalhados por todo o país com dezenas de milhares de lugares, que recebem partidas presenciadas por cem ou duzentos espectadores e em que a qualidade do futebol é medíocre. Assim, de repente, lembro-me de um Estádio de Alvalade. Mas há mais exemplos. A situação é tão dramática que já há responsáveis políticos a defenderem a demolição, por exemplo, do Estádio de Aveiro. Pelo menos, essa medida teria uma vantagem - seria um momento que proporcionaria mais espetacularidade do que as partidas que lá se realizam.
Estádios não nos faltam. Só não temos nem espectadores, nem jogos de futebol, nem jogadores portugueses. De resto, temos tudo. Dominamos com mestria a tarefa de misturar areia com cimento, assim como a arte de empilhar tijolos uns em cima dos outros. Não nos peçam mais nada, por favor.
Por Miguel Góis, Edição 22 de Outubro 2009 - Jornal "Record"